Como se manifesta a depressão masculina

Publicado em 14 de setembro de 2018.

A ideia de fazer este post surgiu do questionamento de um leitor acerca das características específicas da depressão nos homens e de quais seriam os sinais e os sintomas que permitiriam sua identificação.

Em post anterior (Alguns sinais de que você pode estar com depressão),  abordamos os 9 sinais principais desse desequilíbrio, em ambos os sexos.

Mas por que, então, se fez necessário um post especifico para o público masculino?

Ora, vivemos em sociedade, e no nosso processo de socialização e formação da personalidade somos absolutamente influenciados por padrões culturais que nos impõem comportamentos que variam conforme diversos fatores, tais como: classe social, religião, educação recebida e, especialmente sexo. Em vista disso, é comum que a resposta social masculina seja muito diferente da feminina. Apesar de felizmente os padrões de educação masculina e feminina estarem sendo revistos e atualizados, ainda existem muitas diferenças no que tange à aceitação social de determinados comportamentos dos homens e das mulheres.

Na nossa cultura, há uma tendência social que reitera a força e a virilidade masculina e que desvaloriza a fraqueza ou incapacidade (ainda que temporária) masculina. Por isso, é incomum que os homens demonstrem que estejam sofrendo ou precisando de ajuda. Clinicamente, costuma-se observar que a ala masculina tende a ignorar os primeiros sintomas de adoecimento psíquico e só chega ao consultório quando o problema já está instalado ou até já se agravou.

Por isso, nos homens, a depressão pode se apresentar sob algum viés, estando camuflada sob comportamentos que são mais aceitos socialmente para o público masculino. Vamos a eles:

irritação constante  – com reflexos no trabalho e na família. Talvez essa seja a característica mais específica da depressão masculina. É comum que a família, bem como os parceiros de trabalho e amigos reclamem constantemente de suas frequentes crises de irritação. Homens deprimidos tendem a se irritar com facilidade, e muitas vezes respondem de forma excessivamente agressiva, arrumando confusão, gritando, ameaçando ou quase partindo para as vias de fato.

– desânimo – Os homens deprimidos tendem a apresentar desânimo e falta de energia para fazerem suas atividades corriqueiras. As tarefas  do dia a dia e mesmo a vida em si parece não apresentar qualquer desafio e a pessoa vai levando o barco adiante, mas sem encontrar muito sentido para o que faz. Esses pacientes relatam diversas vezes estarem levando a vida “no modo automático”…

tédio – ou seja, “mais do mesmo”. Esse sentimento de aborrecimento, de desgosto, a clara certeza de ter de encarar a mesma rotina diariamente (ainda que isso seja apenas uma fantasia). Homens relatam se sentirem extremamente entediados, por exemplo, de ter que acordar e ir para o trabalho (“fazer a mesma coisa”) todos os dias. A sensação de previsibilidade da rotina aniquila o ânimo e a energia.

Esses três sintomas (Irritação, desânimo e tédio), combinados,  levam àquela que é a característica mais marcante da depressão em ambos os sexos:  a anedonia. Caso você não tenha lido o post anterior, vamos relembrar o que significa anedonia:

– Anedonia – incapacidade de sentir prazer nas mais diversas atividades e no cotidiano em geral. O que anteriormente era interessante e estimulante, agora fica sem graça e muitas vezes perde o sentido.

Esses sintomas combinados afetam e, podem vir a deteriorar muito as relações familiares e afetivas e a própria capacidade de trabalho e social do paciente deprimido. Mas a resposta dos homens ao problema é ainda condicionada pelos mesmos padrões sociais aprendidos ao longo do tempo que veem com muita reserva a depressão masculina. Exatamente por isso, existe uma tendência a que o homem deprimido esconda dos outros sua insatisfação e, muitas vezes, acabe descontando sua frustração na bebida, abusando do álcool e, eventualmente, de drogas também.

Em vez de visitar o consultório do analista ou do médico para falar a respeito de suas frustrações e dificuldades, acaba sendo comum que a ala masculina seja encontrada afogando as mágoas no bar mais próximo de casa. Essa postura dificulta o diagnóstico e também contribui para postergar o início do tratamento, o que pode levar a um agravamento dos sintomas.

Trabalhar muito, beber e estar constantemente cansado são atitudes até bem aceitas socialmente, enquanto fazer terapia ou buscar um psiquiatra, nem tanto… Mas como me disse uma vez um paciente, “viver sem prazer, não dá!” Por isso, ao identificar que você ou algum ente querido apresenta qualquer um desses sintomas de sofrimento, procure buscar ajuda ou oriente essa pessoa a fazer o mesmo.

Saiba que a depressão tem tratamento psicoterápico e/ou medicamentoso e que falar de seus problemas, aflições e dificuldades a um profissional já pode, por si só, trazer bastante alívio. Um terapeuta capacitado poderá ainda ajudá-lo a identificar as causas desses problemas, bem como a traçar estratégias para melhorar muito a sua qualidade de vida.

Por tudo isso, não adie a decisão de pedir ajuda. Há sempre luz no fim do túnel, mas ela não costuma estar nem no bar da esquina, nem na próxima latinha de cerveja dentro da geladeira… Agora se você quer saber mais sobre como se defender da depressão, clique aqui para ler 5 dicas para lidar melhor com a depressão.

Ilan Segre é Psicólogo Clínico formado pela USP, pós graduado em Fitoterapia pela Fac. Mario Schenberg. Complementou sua formação como psicólogo residente no Gupta Yogic Hospital (Lonavala), Jipmer Hospital (Pondicherry) e no Nisargopchar Ashram (Pune), na Índia. Foi um dos fundadores do NUMIER – Núcleo de Medicina Integrativa do Hospital Emilio Ribas e, em 2012, publicou o livro Terapia Integrativa (ed. Ágora).  Atualmente atende em seu consultório, unindo Psicoterapia Clínica com técnicas integrativas para remissão dos sintomas.


Comentários

Tania Cristina Gottberg

Em 26 de setembro de 2018 às 18:04

Ilan parabéns pela abordagem desse tema muito presente nos dias atuais e ainda considerado tabu.O sofrimento surge inerente ao ser humano, não escolhe sexo, cor ou religião e merece ser compreendido e aliviado ou até resolvido, pois, afinal, estamos aqui para aprendermos, amadurecermos e sermos realizados.Um abraço!


Tania Cristina Gottberg

Em 26 de setembro de 2018 às 18:55

Ilan, na sua opinião, o quanto tem de hereditariedade na depressão?


Ilan

Em 28 de setembro de 2018 às 14:31

Olá Tania. Na minha opinião a genética conta sim, mas os genes dependem das condições socio-economicas e de educação de cada indivíduo para se expressarem ou não. Há uma composição única em cada um, bem como a capacidade de resiliência individual, o que torna difícil tanto apontar os genes como causa, bem como preditivos de comportamento. Abraços


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