Vai dar tomate no meu jardim

Publicado em 13 de setembro de 2016.

flor_tomate_mao_roundedHá alguns meses fiz uma experiência insólita para os dias atuais. Peguei um dos tomates orgânicos que sempre compro na Feira da Água Branca, retirei suas sementes e resolvi simplesmente enterrá-las em meu canteiro, sem grandes esperanças de que se transformassem num tomateiro. Meu desejo era começar a cultivar plantas que pudessem ser comestíveis e não apenas com fins estéticos.

E para minha surpresa, pouco a pouco surgiram os primeiros brotos, micro-folhas que apenas despontavam da terra e que ainda nem se pareciam com uma planta de verdade. Com cuidado, me assegurei que os futuros tomateiros teriam espaço livre de terra, ar e luz e também cuidei para que não lhes faltasse água.

Passaram-se uns dois meses e as folhas foram crescendo e tomando uma forma particular, toda recortada, como é, de fato, o formato da folha do tomate. Passaram-se então três meses e fui me assegurar de que as plantas não seriam sufocadas por outras nem que por um descuido qualquer, morressem secas ou, ao contrário, afogadas por excesso de água. Para isso era necessário lembrar de olhar a terra do canteiro quase diariamente e assim observar a sua umidade e o crescimento da planta. Isso aos poucos me levou a desenvolver um olhar constante de acompanhamento desta e das outras plantas. Então, quando as hastes começaram a se pronunciar, arrumei pequenos pedaços de madeira, de forma a escorá-las e ajudá-las a tomar um rumo mais vertical na vida.

Fora estes pequenos detalhes, a natureza se encarregou de todo o resto, desde o princípio. Aproximadamente uns quatro meses depois de ter plantado as sementes, eis que agora surgiram pequenas flores amarelas, de onde imagino que futuros tomates irão pender, em breve. O tomateiro é famoso por ser uma planta muito sensível e portanto que morre facilmente. Por isso tive a grata satisfação de me ver não errando muito no processo…

Esta experiência de observação e pequenos cuidados ao longo do tempo me fez refletir sobre algumas ideias:

1. Que quando queremos experimentar algo novo é sumariamente necessário nos arriscarmos, mesmo quando temos pouca ou nenhuma experiência sobre o assunto;

2. Que o que nos atrapalha de assumir estes riscos são as expectativas futuras;

3. Que as sementes e as plantas já sabem o que irão fazer, precisamos apenas fornecer as condições mínimas necessárias a elas (luz, água e solo, nesse caso);

4. Que a ordem natural das coisas possui seu próprio ritmo de desenvolvimento e crescimento;

5. Que se estivermos dispostos, podemos refinar a nossa capacidade de atenção e a partir disso, intuitivamente afinarmos nossa percepção às nossa ações;

6. Que se pudermos não atrapalhar o curso natural do desenvolvimento, já estamos fazendo bastante;

7. Que mesmo o simples contato com esses seres vivos relativamente simples, nos obriga a desenvolvermos uma atitude cuidadosa, carinhosa e acima de tudo, respeitosa;

Se extrapolarmos esses conceitos para nossas relações com as outros seres viventes bem mais complexos (pessoas), veremos que os mesmos princípios poderiam ser aplicados. Em geral, buscamos fórmulas, comportamentos padronizados e códigos de conduta socialmente. Nos blindamos em pequenas tribos com as quais nos identificamos ou no mínimo nos sentimos mais confortáveis, assim não corremos riscos.

Então, o nível de comunicação que mantemos com os outros tende mais a um monólogo do que a um diálogo. Contamos de “nossas” vidas, “nossas” coisas, “nossos” projetos. Não ouvimos os outros, portanto não trocamos muito com eles e menos ainda percebemos as coisas que não foram necessariamente ditas na conversa, mas que seriam de suma importância para o desenvolvimento de uma boa relação, assim como a água, o solo e a luz… Tendemos a nos comportar mais como colonizadores do que como turistas.

Não estamos atentos, nem tampouco preocupados em entender outras formas de ser e de estar no mundo. Buscamos o igual, excluímos o que não se encaixa. Somos orgulhosamente preconceituosos. Isso vale para todas os nossos relacionamentos, por ex. familiares, filhos, pais, maridos e esposas,  bem como também nas relações de trabalho, alunos, colegas, e talvez um tanto ainda mais com estranhos.

Mas todos nós, sem exceção, viemos capacitados com um aparato mental que um dia nos permitiu observar  o mundo e interagir a partir de nossas percepções, basta olhar crianças (bem pequenas) explorando o seu entorno. No início da infância ainda somos capazes de apreender e responder ao mundo de forma mais curiosa e menos invasiva.  Mas por algum motivo misterioso, na prática nos esquecemos rapidamente de como isso opera.

Talvez aprender a plantar e a cuidar das plantas deve tornar-se disciplina obrigatória nas salas de aula, não apenas plantar um grão de feijão e vê-lo germinar, mas observá-lo crescer na terrra e cuidar para que se desenvolva bem. Assim, quem sabe iremos aprender a ouvir antes de falar, observar antes de agir e a ter paciência para esperar as flores e os frutos… Talvez de uma forma simples, isso nos torne um pouco mais capacitados a deslocarmos a atenção de nosso próprio umbigo e nossas grandiosas necessidades e de nosso imediatismo galopante.

Quem sabe um dia nos tornemos um pouco menos egoístas e mais capazes de promover o aprendizado mútuo, em relações de mais curiosidade, respeito e tolerância. Aliás, esses conceitos são os pilares com os quais deveríamos nos preocupar, permitindo então que nossas relações humanas se desenvolvessem assim como cresce uma planta, de forma mais livre e mais espontânea. E talvez, então, o ódio, o medo e a a violência dêem mais lugar ao diálogo e ao debate, tão fora de moda em tempos atuais, nos quais imperam certezas, verdades absolutas e consequentemente uma enorme agressividade…

De fato se esse dia chegar, vai dar tomate em nossos jardins.

ILAN FERNANDO SEGRE
Psicólogo USP (CRP 06/112563)
Pós-grad.  Fitoterapia Fac. Mario Schenberg.
Autor do livro TERAPIA INTEGRATIVA
CONSULTÓRIO f: (11) 96350-7228


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