Porque temos pensado tanto em suicídio?
Publicado em 23 de abril de 2017.
No dia 12 de abril saiu no jornal Folha de São Paulo uma matéria que mostra que os alunos do quarto ano da Faculdade de Medicina da USP tem feito repetidas tentativas de suicídio (foram 6 nesse ano, sendo 3 nas últimas semanas). Leia matéria na integra clicando aqui.
O que será que anda acontecendo para que jovens alunos do curso mais concorrido, da melhor Universidade do Brasil, estejam pensando em se matar? Olhando de fora, pensar em suicídio numa das melhores universidades públicas do país seria como atravessar quilômetros a nado e morrer na praia… Mas na verdade, a questão é bem mais profunda do que parece.
Primeiro porque a vida pré e pós adolescência com todos os seus dramas, descobertas e frustrações está longe de ser o paraíso que imaginamos, mesmo na USP. O que provavelmente está levando esses jovens a pensarem em se matar é em uma palavra, a exclusão. Uma série recentemente lançada no Netflix tem dado o que falar sobre isso: “13 reasons why”. Recomendo que pais e mestres a assistam para se inteirarem do tema. Não porque se trate de um assunto novo nem inédito no currículo escolar, mas sim porque ele está mais presente que nunca, o bullying. Na vida em grupo, tudo pode ser motivo para sofrermos bullying: ser muito gordo, ou magro demais, ser alto demais ou baixinho, ter um sotaque diferente, cabelo espetado ou sardas. Geralmente ter também um jeito mais afeminado para garotos ou masculinizado para garotas é quase garantia de assédio. Mas o motivo na verdade, é o de menos…
Uma das maiores dificuldades que todo jovem irá enfrentar em algum momento é a possibilidade de aceitação e de relacionamento dentro dos grupos dos quais irá fazer parte. O que “13 reasons why” tenta mostrar é que nos Estados Unidos isso é ainda mais intensamente pautado pela atuação dos meninos nos esportes e para as meninas na atuação como cheerleaders. Os que não conseguem se destacar tanto, em geral tentam se “aliar” aos lideres, emprestando um pouco de sua popularidade e prestígio. Quando isso não acontece, está formado o terreno para o possível isolamento. Na série, não é apenas a personagem Hannah que sofre com isso. Muitos alunos sofrem e tentam de alguma forma construírem bases de relacionamento, ainda que bastante frágeis. Esta dificuldade em se inserir no grupo, aliada a uma incapacidade de expressar os sofrimentos que a vida adolescente promove, pode estar na base dos motivos pelos quais muitos acabam pensando em tirar a própria vida.
Os grupos funcionam na base da construção e fortalecimento de sua própria identidade, ou em outras palavras, os indivíduos sustentam a inclusão de membros que corroborem uma “cara” do próprio grupo, que se comportem da mesma forma e ratifiquem seus ideais. Aquele que é diferente assusta e deve ser isolado, neutralizado. E para isso recorre-se à ridicularização. O famoso bullying nada mais é do que a ferramenta prática dessa ridicularização. Antes disso, ainda na infância, a coisa não funciona exatamente assim. Em geral, o que é diferente para as crianças estimula, gera curiosidade, não assusta tanto. Porque será que “emburrecemos” quando crescemos? Este processo deve necessariamente estar ligado ao próprio amadurecimento e portanto, à conformação às leis sociais (não escritas) dos grupos. Ou você duvida que somos ensinados a nos vestir de determinada forma, nos portar socialmente de determinada forma e nos expressar também?
Não se sabe exatamente como se dá o processo decisório de aceitação ou exclusão dentro dos grupos, mas é possível inferir que os critérios se baseiem em grande parte na avaliação de como o novo candidato se comunica, como se veste, opina e reaje. Se você não concorda, repare bem que cada “tribo” tem sua própria forma de falar, de vestir e de se apresentar. Tudo isto constrói um jeito de ser e comunica um recado claro aos demais. Mas se temos que nos sacrificar para nos moldar aos grupos, qual é o grande benefício que obtemos? Provavelmente, os grupos nos prometem e nos fornecem uma sensação de proteção.
Esta dinâmica é compartilhada por qualquer tipo de grupo, “tribo” ou conjunto de pessoas que se encontrem para algum fim comum. Aqueles indivíduos que se distanciem da norma, seja por características hereditárias, de vestuário ou de comunicação, em geral acabam sendo excluídos e ridicularizados. Das tribos indígenas, passando pelo exército ou até grupos mafiosos sempre há um ritual de “batismo”, que serve para confirmar ou refutar se determinado membro pode fazer parte ou não do grupo. Parece que na Faculdade de Medicina da USP ou numa escola estadual da periferia o assunto é sempre um só: fazer parte…ou tolerar a exclusão.
O que a série “13 reasons why” apresenta ao longo de seus 13 capítulos, corrobora a minha ideia de que a o bullying em si não é o único problema, mas sim a sensação de isolamento absoluto e a confirmação feita a partir da própria incapacidade de lidar com o problema ( amigos, conselheiro da escola, pais, etc, todos falham nesse processo). E é por isso que a série teve tanto sucesso. Exatamente porque vemos nossos comportamentos espelhados: seja no algoz, seja na vítima ou em seus pais. Ou até mesmo no garoto Clay, que por excesso de timidez, não consegue demonstrar seu amor pela protagonista e portanto contribui para reforçar a certeza de seu isolamento (a série sugere, romanticamente, que se o amor se concretizasse a protagonista não se suicidaria).
Alguns personagens ainda transitam entre o algoz e a vítima, como é o caso da personagem do fotógrafo Tyler, que tanto assedia a protagonista, quanto sofre humilhações dos colegas da escola. Talvez, olhando de perto, o que aconteceu nos bastidores dos corredores da faculdade de medicina não tenha sido tão diferente, na essência, dessa mesma ânsia por pertencimento e dos consequentes processos de abandono e ridicularização sofridos pelos alunos. A inclusão/rejeição não está restrita à adolescência ou ao ensino médio. Dentro da Universidade, a pressão pela inclusão no mundo adulto é ainda maior…
Além das provas e da grande dificuldade de aprendizado que fazem parte do curso de medicina, os jovens sofrem a pressão grupal das “panelas”, termo que os próprios professores e alunos dão aos subgrupos dentro da turma. Conforme dito pelos próprios alunos da faculdade, aqueles que não se conectam às panelas da turma acabam por formar a chamada “panela lixo” ou seja a panela dos excluídos, dos que ninguém quis ter dentro do time. Me pergunto se os alunos que tentaram se suicidar na faculdade não seriam exatamente os dessa panela? Provavelmente sim…
E a pergunta que as mães poderiam estar se fazendo é porque será então que meu filho(a) nunca contou antes para mim o que estava acontecendo? Ora, porque em geral os adolescentes e jovens sentem que devem ser capazes de resolver seus problemas sozinhos, sem a ajuda dos “adultos”. Existe ainda um modo único de funcionamento grupal que é partilhado apenas por aqueles que pertencem (ou tentam pertencer) a um determinado grupo e pedir ajuda aos pais não costuma ser muito bem visto.
Além disso, a dinâmica adolescente e jovem é pautada fortemente por um estado hormonal que valoriza os instintos: território, dominação, liderança…Vale sim a lei do mais alto, do mais forte, do mais potente. Vide porque as seguradoras incluem a pergunta se há algum jovem na casa (de até 25 anos) que dirija o carro…Os jovens gostam de se arriscar (também ao volante) e precisam disso para buscarem reconhecimento no grupo. As seguradoras sabem muito bem disso.
A dúvida que mais deve ecoar na cabeça desses jovens talvez seja: “O que preciso fazer para ser aceito e reconhecido nesse grupo?” Para piorar a equação, a resposta muitas vezes vem carregada de álcool e drogas, e/ou comportamentos que possam ser valorizados pelo grupo como dignos de admiração. Em geral isto está ligado à capacidade de agressividade.
Nessa dinâmica de avaliação e inclusão/exclusão, somos rapidamente rotulados. O grupo por meio de suas lideranças rotula e não fornece tempo nem se interessa por saber quem é o indivíduo por trás da aparência, ao contrário, apenas espera ratificar o seu diagnóstico. Na série do Netflix vemos ainda a derrocada da protagonista em lidar com as constantes humilhações decorrentes do rótulo de “easy” e posteriormente “slut” que recebe. Mais do que isso, ela falha absolutamente em encontrar formas de aliviar a pressão que sofre.
Até que as escolas, e os pais e os professores parem de ter medo e se mobilizem para olhar de frente esse problema, muito sofrimento ainda irá acontecer. A maioria das pessoas sofre em silêncio. As alternativas passam pela possibilidade de diálogo entre todas estas instâncias, de forma que se possa discutir dentro dos próprios locais onde os abusos acontecem (escolas, universidades, ambientes de trabalho) formas de denunciar, frear e impedir os abusos dos alunos por eles mesmos. Até que nos tornemos menos manipulados por nossos instintos animais e possamos ser, de verdade, mais humanos.
Para isso precisamos urgentemente reformular a forma como pensamos e educamos nossos filhos. Viver em comunidade vai além de escolher conviver apenas com aqueles que são iguais a mim. Como pais, defendemos uma ideia bonita, inclusiva, mas na prática nos comportamos de forma diferente. Na vida real, buscamos validar o posicionamento e a inclusão dos filhos nos grupo daqueles que parecem ser como nós somos. Na maioria das vezes, a própria escolha da escola passa pela avaliação subjetiva de quem serão os alunos que irão conviver com os nossos pequenos.
Infelizmente na vida real, assim como na série, dinheiro e status não apresentam qualquer garantia de caráter. No seriado, isso se revela exatamente ao contrário. Os episódios que tem ocorrido na Faculdade de Medicina mostram que mesmo nas melhores universidades do País, é bem provável que o bullying ainda corra solto. Na prática sabemos muito pouco daquilo que acontece nos bastidores, seja nas gravações das novelas (leia post sobre assédio do ator José Mayer aqui), seja nos corredores das escolas e universidades. Parece ainda que o assédio moral e físico anda espalhado por toda parte, e que em poucos lugares seu sofrimento encontre resposta, ou pelo menos formas adequadas de expressão. As tentativas de suicídio na Faculdade de Medicina podem muito bem serem entendidas como um grito de ajuda. E já passou da hora de nós tentarmos tapar o sol com a peneira e fingir que o problema não é grave.
ILAN FERNANDO SEGRE é psicólogo formado pela USP (CRP 06/112563) e pós-graduado em Fitoterapia pela Faculdade Mario Schenberg. Escreve regularmente no blog e é autor do livro TERAPIA INTEGRATIVA, ed. Ágora.
CONSULTÓRIO f: (11) 96350-7228
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