Porque é tão difícil irmos atrás dos nossos sonhos?
Publicado em 13 de julho de 2016.
1. Primeiro porque não sabemos quais são os nossos sonhos e nem mesmo o que nos faria mais felizes.
Não temos tempo. Vivemos uma vida extremamente corrida e nos orgulhamos muito disso. Não temos tempo de cozinhar, de ver nossos filhos, de estarmos com nossas famílias e menos ainda dispomos de tempo livre para pensar. Melhor assim…
Porque pensar poderia ser muito arriscado, já que poderíamos descobrir que não andamos fazendo muita coisa na direção de satisfazer nossos sonhos ou pelo menos nossos desejos mais diretos.
Optar por seguir em um trabalho que não nos satisfaz, um relacionamento que há muito deixou de trazer coisas boas ou apenas passar o tempo sem um propósito definido, pode ser a própria causa de nossa crise de insatisfação crônica. Vivemos insatisfeitos, mas não temos condições para avaliar o que nos causa essa insatisfação, em outras palavras não sabemos nem como, nem o que devemos mudar…
É bem mais fácil (e mais aceito socialmente) nos mantermos num emprego que pague relativamente bem, que ofereça uma certa estabilidade e até mesmo um gordo bônus ao final do ano, do que arriscarmos nossa segurança por sonhos, especialmente se não temos tempo para descobrir o que tanto buscamos.
Buscar essa resposta talvez seja o único antídoto para nossas crises de insatisfação. Tentar realizar as nossas aspirações talvez seja o único remédio para o momento atual, no qual nos são ofertados um sem número de distrações (bem como opções de consumo lícito e ilícito), nos quais o convite é nos inebriarmos fisica e mentalmente, oferecendo a tão sonhada alienação do nosso dia a dia.
As distrações variam desde uma imensidão de informação, dados e notícias, inúmeros aplicativos que prometem nos manterem conectados (whatsapp, messenger), games e outras formas de distração diversas, que nos aliviam de fazer as perguntas que tanto nos angustiam…
2. Nos conformamos a um status quo
Muito se discute sobre a felicidade, o que é e como atingí-la. Sabemos intuitivamente que ser feliz é buscar realizar aquilo que sonhamos, que imaginamos, mas na prática, acabamos por acreditar que a felicidade está mais próxima do Ter do que Ser. Confundimos a realização dos desejos com a sua contra-partida material e apostamos as fichas na alegria transitória da compra do carro novo, ou numa nova conquista, na mudança para uma nova casa ou depositamos as esperanças no filho que ainda irá nascer.
Mas de acordo com a filosofia oriental todo a forma de consumo/alienação está fadada ao fracasso. Seja pela simples questão da passagem do tempo, que traz consigo o desinteresse, seja pelas frustrações que coisas e pessoas tendem a nos causar com o passar do tempo. Ou seja, estamos falando em outras palavras do conceito de “impermanência”, construção Budista tão proclamada e ao mesmo tempo esquecida nos dias atuais. E imediatamente nos lembramos sim que temos que preparar o jantar, buscar o filho na escola, ou que precisamos comprar um sapato novo, refazer o guarda-roupa, o estofado, a decoração da sala, trocar de carro ou de apartamento…
Delegar a responsabilidade ao “outro” seja ele uma pessoa ou à compra de um novo objeto nos oferece a possibilidade de postergar nossa responsabilidade por assumirmos nossas vidas e nossos desejos. E, arrisco dizer, para nos sentirmos mais satisfeitos o que desejamos deve ter uma profunda relação com nossos talentos. E isso não tem qualquer relação com aquilo que consumimos. Talvez o nosso maior problema tenha sido termos aceitarmos essa ideia tão bem comercializada, de que aquilo que possuímos irá nos brindar com a realização que tanto sonhamos. Doce ilusão…
3. Não acreditamos em nossos talentos e tememos o vazio
Se nem sabemos quais são nossos talentos, o que dirá então de acreditar neles… A situação fica ainda pior num País onde a instabilidade tem sido a regra da vez. Fica realmente muito difícil acreditar e apostar que poderemos ter sucesso fazendo aquilo que gostamos. Mesmo quando conhecemos nossos talentos, vale lembrar que seremos sabatinados por nossos amigos e nossos familiares e um tanto mais por aqueles que não têm a coragem nem a disposição para irem atrás daquilo que sonham, mas tem sim a capacidade invejosa de minar a nossa própria autoestima.
O vazio vem do fato de que para projetarmos o futuro temos de ser capazes de aguentar o não saber, o não ter e o não ser, ainda… Tudo isso virá a seu tempo, mas antes que se concretize temos que projetar, imaginar e sonhar com futuras possibilidades. E isso angustia muito, exatamente pela possibilidade de que não aconteça. Daí inúmeros caminhos de adoecimento se manifestam, dentre os quais destaco dois:
1. ansiedade por “não ter garantias” ou
2.depressão por já “ter certeza” de que não seremos capazes.
A dificuldade de imaginar-se no futuro também contribui para uma paralisação mental e física. Por isso que vez por outra optamos por assumir uma posição um tanto desconfortável na vida, porém conhecida. É melhor o ruim mas conhecido em vez do novo, promissor, porém extremamente incerto. Então ficamos onde estamos, infelizes, mas de certa forma seguros em nossa infelicidade.
4. O futuro, incerto por definição, nos brinda com uma enxurrada de ansiedade
Quem nunca teve dúvidas, ainda não sabe o que é estar vivo… Quantas vezes não nos perguntamos o que será que irá acontecer, se deveríamos optar por esse ou por aquele caminho?
– Será “que pego essa proposta de emprego ou fico no emprego atual “?
Para algumas pessoas, apenas cogitar se responsabilizar por suas escolhas pode ser fatal. Porque, de fato, na vida real, precisamos nos arriscar bastante. De verdade, não temos qualquer certeza, sobre absolutamente nada. Nem de nosso casamento, nem de nosso emprego, nem de que nossa vida vai continuar até o final da próxima semana. Isso é fato, mas na teoricamente (e na nossa mente também), acreditamos sim que iremos continuar vivos para sempre, que nada irá nos separar da pessoa amada e buscamos cada vez mais nos assegurar às nossas posições financeiras e de status.
Talvez seja por isso que ficamos até as 20h no escritório, para tentarmos garantir nossa empregabilidade com uma dose extra de dedicação e trabalho diário. Só que tudo, absolutamente tudo isso é falso e desmorona como castelos de areia. Mas o medo, esse comandante das emoções do nosso navio, funciona também como o freio de todas as futuras atitudes mentais e ações práticas que poderíamos tomar. Assim ficamos inibidos de tomar decisões que nos tirem de nossas próprias zonas de conforto. Mais uma vez vale o famoso ditado: “tá ruim, mas tá bom…”, o que não passa de uma grande armadilha mental.
5. E se pudéssemos encarar o futuro como um desafio, com os braços e com a mente aberta?
Antes de encontrarmos o conforto tão almejado, é necessário imaginarmos um novo cenário, projetarmos esse cenário futuro e buscarmos formas práticas de buscar sua realização. Para isso é necessário tolerar o vazio, brincar com as dúvidas e apostar no incerto. Precisamos estar dispostos a abandonar antigos hábitos e instalar o “novo cenário” antes apenas como uma ideia, posteriormente como um desejo e por fim buscar torná-lo uma realidade concreta.
Uma novo posicionamento perante ao mundo, de acordo com nossos desejos, demanda mudanças de atitude que dependem em grande parte da superação de nossos medos. Mas se não estivermos dispostos a arriscar e abrir os braços para aquilo que é incerto, estaremos sempre fadados a desperdiçar nossos potenciais e viver uma vida morna, nem quente nem fria…apenas morna.
6. Nos tempos atuais, faz falta espaço e tempo para curar os males que nos afligem a alma.
São cada vez mais frequentes no consultório queixas de pacientes que vem com diagnósticos de ansiedade ou depressão. Muitas vezes somos tentados também a pensar que a incapacidade dessas pessoas de efetuarem mudanças em suas vidas, advém da própria característica da doença. O diagnóstico, apesar de ser confortável considerando o eixo médico-paciente (uma vez que dá nome o desconforto), pode, sem querer, ser uma armadilha que mascara uma busca mais íntima e profundamente individual. A ansiedade ou a depressão podem se manifestar em função de uma sensação de desconexão entre o que somos e o que fazemos, entre o que somos e o que gostaríamos de Ser (com S maiúsculo). Mas para dar vazão à isso é necessário tempo…. Tempo e coragem para nos questionarmos e buscarmos respostas. E é para isso que a terapia existe.
A terapia proporciona um tempo e um espaço diferentes de qualquer outro lugar ou relação. A terapia difere de compromissos de trabalho, familiares, ou de lazer. Terapia é diferente de aconselhamento, de dar opinião, como um amigo faria. Trata-se de um espaço no qual se instala entre o paciente e o terapeuta uma relação de confiança, que é capaz de dar segurança na busca por sabermos quem somos e portanto, nos conectarmos diretamente a nossos desejos mais profundos. E como eu disse no começo desse post, buscar responder a esses questionamentos talvez seja a única coisa realmente necessária em nossas vidas.
ILAN FERNANDO SEGRE
Psicólogo USP (CRP 06/112563)
Pós-grad. Fitoterapia Fac. Mario Schenberg.
Autor do livro TERAPIA INTEGRATIVA
CONSULTÓRIO f: (11) 96350-7228

Comentários
Niviane Alves
Em 22 de janeiro de 2022 às 22:10