Hospital Psiquiátrico na Noruega trata os doentes sem remédios

Publicado em 17 de março de 2018.

No ano passado foi inaugurado em Tromsø, na Noruega, uma nova ala no Hospital Psiquiátrico Åsgård, com uma proposta absolutamente diferente daquelas vigentes nos Hospitais Psiquiátricos tradicionais. Mas qual é o grande diferencial desse Hospital? Bom, na entrada da enfermaria já se encontra o cartaz que apresenta sua proposta audaciosa: “medikamentfritt behandlingstilbud” ou seja,  ‘ofertas de tratamento sem medicamentos‘.

Esta ala do Hospital responde à uma ordem do Ministério da Saúde norueguês, que ordenou que seja implementada em todo o país a opção de tratamentos não medicamentosos para pacientes psiquiátricos. Na prática, isso demonstra a conduta séria de um país que não viu melhoria nos índices de tratamento dos doentes mentais com as formas convencionais de internação e medicação e resolveu fazer algo a respeito…

Longe de ser fruto de um momento de loucura de médicos irresponsáveis, que pregam tratamentos naturais, new age, esse projeto nasceu depois de longos anos de requisições feitas por organizações de pacientes, que buscavam uma alternativa não medicamentosa de tratamento, ou ainda por aqueles que buscavam ajuda para diminuir a quantidade de medicamentos utilizados.

A grande inovação de criar oficialmente um departamento “sem-drogas” num Hospital, é que isso dá legalmente voz aos pacientes, no que tange a seu direito de escolha sobre a forma de tratamento. Além disso, a iniciativa nos mostra que um novo paradigma de tratamento é possível, desde que respaldado pelo sistema de saúde local.

Historicamente, o poder do diagnóstico, bem como do tratamento dos pacientes sempre esteve a critério dos médicos e essa talvez seja uma das  iniciativas pioneiras na qual os pacientes passam a ser os decisores sobre os tratamentos escolhidos. Isso está em linha com o novo modelo mundial de Medicina Integrativa, no qual os pacientes participam ativamente das decisões sobre o seu tratamento. Os terapeutas, sejam eles psicólogos ou médicos são figuras importantes, que acompanham os doentes mentais e os auxiliam nesse processo, mas não são os detentores do saber absoluto e não decidem mais sozinhos o futuro de seus pacientes.

Aliás, essa não é uma ideia nova e possivelmente foi inspirada nos ótimos resultados que a Escola Finlandesa obteve. O projeto Open Dialogue, existente há mais de 30 anos na Finlândia caracteriza-se por se pautar na escolha do paciente e de seus familiares sobre o tratamento escolhido, oferecendo alternativas não medicamentosas ou utilizando a medicação nas menores doses possíveis e por períodos mais curtos de tempo. O uso medicamentoso ocorre em especial durante as crises e de forma pontual, não permanente.

Essa projeto está gerando debates não apenas na Noruega mas em todo o Mundo, por criar um novo paradigma às formas tradicionais de tratamento. E é claro que isso irá gerar muita resistência de vários setores em especial o próprio setor médico e farmacêutico. Fato também que esse projeto só foi possível num país onde a saúde pública funciona, em que o Ministério da Saúde é sensível às organizaçōes criadas pelos pacientes, e que busca, de verdade, oferecer maior qualidade de vida a eles, ao mesmo tempo em que talvez possa reduzir os custos do Estado com a medicação.

Mas antes de tirar conclusões precipitadas, vale acompanhar as estatísticas que serão produzidas com esses pacientes, em estudos que irão acompanhá-los ao longo dos próximos anos. Se tudo der certo, a iniciativa de colocar os pacientes à frente de seu tratamento irá demarcar um novo momento na  psiquiatria. Essa abordagem irá nos obrigar a revisitar nossos velhos conceitos e paradigmas, abrindo espaço para um futuro onde talvez teremos os interesses daqueles que sofrem, sendo atendidos em primeiro lugar.

Sobre o autor:
Ilan Segre é Psicólogo Clínico formado pela USP, pós graduado em Fitoterapia pela Fac. Mario Schenberg e foi um dos fundadores do NUMIER – Núcleo de Medicina Integrativa do Hospital Emilio Ribas. Escreveu e publicou em 2012 o livro Terapia Integrativa (ed. Ágora). Complementou sua formação como psicólogo residente no Gupta Yogic Hospital (Lonavala), Jipmer Hospital (Pondicherry) e no Nisargopchar Ashram (Pune), na Índia. Atualmente atende em seu consultório, unindo psicoterapia com técnicas integrativas para remissāo dos sintomas.


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