Desvendando o abuso sexual

Publicado em 11 de dezembro de 2018.

abuso sexualUma leoa está imóvel na Savana, observando zebras beberem água perto dali. Ela observa cuidadosamente entre os arbustos, enquanto suas futuras presas matam a sede. Estuda cuidadosamente os movimentos das mães com seus filhotes, visualiza os indivíduos mais velhos e estuda rapidamente cada um dos animais, procurando identificar e se fixar naqueles mais lentos, nos mais frágeis, naqueles com menor possibilidade de reação.

Transporte essa cena para o mundo humano e imagine que ela bem que poderia acontecer em uma rua escura e deserta, no transporte público, após um treino esportivo, numa  massagem, aconselhamento pessoal, etc. Mas especialmente nos templos, retiros e locais para encontros espirituais, onde ocorre a intersecção do transcendente com o mundano é que o perigo de um abuso sexual sem violência mais se apresenta. Também os homens, quando se comportam como predadores, reféns de seus próprios instintos, usam os mesmos instrumentos que os animais para caçarem: escolhem meticulosamente as presas mais frágeis e com menos chances de revidar um ataque, seja num ambiente público ou privado.

Quando pensamos em abuso sexual sem o uso de violência física ou ameaça, estamos adentrando o campo da absoluta manipulação psicológica. O ataque nesses casos, não é direto e claro, como o da leoa, mas sim dissimulado por meio de operações psicológicas complexas e interligadas. Por isso a análise e a escolha correta das presas é fundamental…Prefere-se aquelas que estão mais fragilizadas e abaladas mentalmente. E há uma concentração de pessoas fragilizadas emocionalmente em retiros, clínicas de tratamentos diversos, consultórios de terapias variadas e também nos ashrams, nos cultos, nas igrejas, nos templos, nas sinagogas e onde quer que se prometa um alívio espiritual ou material para as dores nossas de cada dia.

É exatamente esse mecanismo de ação que buscaremos desvendar nesse post, muito além apenas da óbvia perversidade com a qual os que se autodenominam gurus, mestres, médiuns e terapeutas subjugam seus rebanhos e tomam suas vítimas pelo pescoço. Entendendo a forma como se perpetra o jogo do abusador, podemos aprender a nos proteger de eventuais tentativas.

Especialmente nos momentos em que estamos mais vulneráveis emocional e afetivamente, podemos ser presas fáceis numa cadeia ilusória de engrandecimento e importância, que por fim nos leva a sermos fisgados pelo nosso próprio narcisismo, tornando-nos quase que indefesos perante o sedutor convite alheio. Aliás, muitas vezes esses abusadores podem ser nossos próprios ídolos ou pretensos salvadores.

Desde a última semana o caso mais falado na mídia é o escândalo do médium, João de Deus, denunciado por violentar sexualmente mais de 300 mulheres que buscavam auxílio em seu templo. Nesta sexta-feira, 14 de dezembro, foi decretada a prisão do médium após as denúncias, acusado de abuso sexual por pelo menos 13 mulheres.

Casos de abusos sexuais por personalidades ligadas à curas não são novidade. Há alguns anos, um professor de Ashtanga Yoga chamado Cristovão de Oliveira (matéria aqui),  também foi denunciado por algumas mulheres, que decidiram processar o guru, por conta dos abusos morais e sexuais que sofreram. Há ainda poucos meses, outra grande auto-proclamada personalidade ligada ao Yoga, o Guru de nome Prem Baba, que administra ashrams no Brasil e na Índia, em Rishikesh, também foi acusado de abuso sexual por duas mulheres, além de fraudes financeiras com dinheiro de doações dos devotos. Nesse caso, ele ainda reconheceu em vídeo, ter “errado” com essas duas vítimas, mesmo tendo assumido o voto de castidade (Brahmachari), ou seja, de alguém que renuncia aos prazeres mundanos, em especial, ao sexo.

A explicação dele para o caso, foi que ele dispunha de liberdade, ora para cumprir o voto de castidade, ora não, podendo expressar livremente sua sexualidade ainda não muito bem sublimada. Ora, convenhamos que essa explicação é muito conveniente, exatamente para quem ainda deseja descarregar um pouco de libido represada por aí… Na verdade, trata-se de uma grande corrupção e redefinição de conceitos ao bel prazer. Mas o fato é que as duas mulheres eram casadas com homens que também eram seus discípulos, ou nas suas palavras frequentadores da sua própria “Sangha“. Os seguidores diretos sendo mordidos diretamente no pescoço.

Mais do que apenas apontar os dedos, quero entender o “modus operandi” e eventualmente desmembrar a forma pela qual esses abusos são consumados. O abuso sexual sem coerção precisa ser perpetrado dentro de uma atmosfera bastante específica, na qual há em jogo uma enorme manipulação emocional e psicológica, que ecoa muito bem sobre uma série de projeções e idealização extrema do abusador. Os(as) abusados(as) esperam em troca receber algum benefício especial, exclusivo, seja este a  cura de suas dores físicas, a cura de uma doença, ou ainda uma libertação de sofrimento.

Vamos entender o que está em jogo nessa relação entre mestres e discípulos. Entre grandes magos e seus adoradores, que se submetem cegamente à própria fé em curas mágicas.

Condições psicológicas que possibilitam um abuso sexual

1. Existe a  atribuição de um poder mágico ao abusador. Não há dúvida de que há a idealização do abusador, como detentor de altas capacidades ou ainda de uma espécie de poder mágico, capaz de feitos incríveis. Nos casos de Abadiânia, isso fez ainda mais sentido, uma vez que  as pessoas iam em busca de milagres  que pudessem curá-las de diversos males de saúde, de câncer aos próprios abusos sexuais sofridos no passado. Buscava-se uma cura mágica, além dos recursos tradicionais, cura que é personificada por um salvador, o médium.

Mesmo que contra todos os indícios, persiste em nós a esperança (quase irracional) do recebimento de um milagre, de uma erva mágica (nesse caso, da Passiflora “energizada” pelo médium), ou de uma energia especial, que seja capaz de transmutar a doença. E o guru (Pai), o mestre, ou o médium são os detentores desse poder mágico, desse feitiço. Quando ainda paira alguma dúvida, existe o coro (a platéia)  que pode atestar as curas milagrosas e entrar em êxtase apenas mediante a presença do mestre. Nesse caso, o médium se auto denominava o “filho” de Deus, mais empoderamento pessoal impossível.

2. Há uma promessa e uma sensação de exclusividade (por parte do abusado). Isso é verdade para o Sr. João de Deus, mas também se reafirma no caso dos outros abusos: chama a atenção a sensação relatada pelas vítimas de terem se sentido privilegiadas por conseguirem uma entrevista exclusiva com o médium. Afinal,  se alguém tão ocupado, que recebe milhares de pessoas todos os meses, puder se dedicar exclusivamente para mim, então devo ser realmente especial.

Para tornar essa experiência ainda mais vívida, o médium convencia às vítimas que elas tinham um dom, uma paranormalidade ou ainda que tinham uma grande missão a cumprir na Casa (ou seja, que eram de fato pessoas muito especiais). Em outras palavras, alimentava ferozmente esse narcisismo inerte em cada um de nós, fazendo-as sentirem-se únicas, amadas e importantes e portanto mais abertas ao elogiador. As vítimas relatavam ainda sentirem-se honradas em serem chamadas diretamente para uma entrevista a portas fechadas com o médium. Afinal quem de nós não gostaria de ter sido escolhido pelo transcendente, pelo filho de Deus em carne e osso.

E então a portas fechadas se realizava a “limpeza dos chakras”, ou a “purificação do corpo”, ou ainda “a sublimação de traumas passados”, por meio da transmissão da cura do Mestre ao Discípulo. Mas como se dava essa cura?

3. Espera-se a qualquer preço a efetivação de uma cura, (que infelizmente é justificada pelo mestre por meio da relação sexual). Mas como a relação sexual não faz parte do hall de técnicas socialmente aceitas (cirurgia espiritual, ervas, meditação, ou outras.) ela precisa ser mantida em segredo,  num pacto entre mestre e discípulos(as). Para premiar e comprar o silêncio das vítimas pós-abusos, o médium entregava cristais, pedras preciosas ou livros autografados, sempre reforçando a falsa ideia de uma importância única para as vítimas.

Esse padrão se repetiu anteriormente. A justificativa que o professor Cristovão dava para abusar física e sexualmente de suas alunas, era porque elas eram fracas e precisavam do seu poder, ou do sexo com ele para evoluírem. Claramente a escolha já era direcionada a mulheres vulneráveis psicologicamente. Ao mesmo tempo as vítimas mais uma vez podiam se sentir únicas e privilegiadas, porque tinham a chance de receber esse poder de alguém tão especial…

Como vemos o argumento usado há décadas continua atual, mudaram apenas a forma e o endereço dos envolvidos.  Ainda quando o Prem Baba abusou de duas de suas vítimas, foi com o intuito de ajudá-las… Ajudá-las a salvarem seus casamentos, fazendo sexo com o Mestre. Curioso esse método…Observamos a manipulação mental absoluta das vítimas, seguindo o mesmo modo de operação nesses três casos.

Reparem que a dinâmica é comum e se pauta sobre a supervalorização de um indivíduo, em detrimento da desvalorização do outro que o procura e que portanto, deve se submeter totalmente a este primeiro: intelectualmente, mentalmente e por último fisicamente. Como a pessoa que procura o Mestre é incapaz, incompetente ou ainda está efetivamente doente, o sexo entra como a forma mágica de transmissão desse poder. É a única possibilidade, a intersecção dos dois planos (espiritual x material) que ocorre quase que por misericórdia divina. Ser abusado passa a ser visto quase como um privilégio…

Os papéis desempenhados no abuso sexual

Temos então caracterizados dois papéis sociais distintos e de um meio de transmissão,  que se apresentam da seguinte forma:

1. Papel Social Primário =  O Mestre / Detentor do poder de cura = abusador / sujeito,

2. Papel Social secundário = O Sofredor / impotente / incapaz / que deseja ser curado = abusado / objeto,

3. Forma de recebimento de cura =  Meio pelo qual o poder ou a cura são transmitidos = a relação sexual

Este é o cenário sobre o qual o abuso sexual se desenvolve. É apenas dessa forma, quando há a delegação do juízo lógico do sujeito a um terceiro que o abuso pode se estabelecer. E o resultado prático para quem foi abusado(a) é primeiramente a dúvida e a confusão mental, e por fim a raiva e a vergonha. Em geral, o abusado(a) tende a recorrer a amigos ou família exatamente para reafirmar a sua experiência, uma vez que após o abuso, em geral ele se encontra preso a um emaranhado de dúvidas e vergonha…

Neste caso mais recente, muitas pessoas questionaram porque ninguém impediu o médium a tempo ou ainda porque ninguém denunciou imediatamente após o ocorrido… De fato, se as últimas estimativas estiverem corretas, parece que tudo começou ainda em meados dos anos 1980. Como permanecemos calados por quase 40 anos?

Porque nos calamos diante do abuso sexual

Bom o primeiro motivo para o silêncio não é outro senão o medo. Também no mundo animal, as presas se sentem extremamente frágeis ante ao predador e no máximo, podem correr, se esconder ou fugir de seus domínios. Mas não são capazes de enfrentá-lo, mesmo quando em bando.

O segundo, já transposto ao nosso plano, é a própria reafirmação do poder do abusador sobre suas vítimas seja no plano real ou no imaginário, que faz com que as vítimas continuem temendo retaliações. Além disso, a memória é traiçoeira e as pessoas, ao cabo de algum tempo, tendem a duvidar de seu próprio juízo questionando suas próprias experiências que antes pareciam tão claras. Mesmo quando elas têm certeza sobre os abusos, ainda existe a vergonha em vir a público se expor, pelo medo da humilhação, pela culpa e vergonha.

Em outros casos mais violentos ou agressivos, pode haver ainda em terceiro motivo uma ameaça direta, desmoralizando o abusado(a) ou até ameaças de acerto de contas com a família, ameaças de morte, etc. Mas vale lembrar que abuso é crime, e os abusadores são predadores sociais da pior espécie, porque se valem de nome, fama e influência para conseguirem o que querem, geralmente dinheiro e/ou sexo de suas presas. E acredite, utilizarão todo o poder que têm para que isso se mantenha em segredo. As presas, são escolhidas a dedo, de forma meticulosa e calculada, a fim de evitar ao máximo complicações legais e jurídicas.

Por tudo isso, se você achar que foi uma vítima de abuso sexual de qualquer maneira, procure ajuda imediatamente. Você pode consultar sua própria família, parentes ou amigos. Nos casos mais graves, você também deve procurar ajuda profissional e legal para tomar as medidas cabíveis e necessárias. Mas saiba que falar  respeito é sempre importante tanto para conter os abusadores, bem como para buscar uma expiação da culpa, que muito frequentemente assola quem foi abusado. Aos srs. imputados nos casos citados nesse artigo, cabe à justiça dar um veredicto sobre a culpa ou a inocência individual.

Ilan Segre é Psicólogo Clínico formado pela USP, pós graduado em Fitoterapia pela Fac. Mario Schenberg. Complementou sua formação como psicólogo residente no Gupta Yogic Hospital (Lonavala), Jipmer Hospital (Pondicherry) e no Nisargopchar Ashram (Pune), na Índia. Foi um dos fundadores do NUMIER – Núcleo de Medicina Integrativa do Hospital Emilio Ribas e, em 2012, publicou o livro Terapia Integrativa (ed. Ágora).  Atualmente atende em seu consultório, unindo Psicoterapia Clínica com técnicas integrativas para remissão dos sintomas.

 

 


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