Aprenda a dizer “não” ao seu filho.

Publicado em 03 de abril de 2018.

A ideia de infância, como uma época única, que necessita uma aproximação e cuidados específicos por parte dos pais e educadores é algo relativamente novo. Apenas como curiosidade, na Inglaterra, por exemplo, por volta dos séculos XVIII e XIX, era comum que as crianças trabalhassem na limpeza  das chaminés, e elas eram usadas graças a seu tamanho reduzido e a capacidade de se encaixarem e escalarem facilmente as chaminés.

fonte: www.accesschimneysweep.co.uk

Esse trabalho era realizado pelas crianças de classes sociais mais pobres e frequentemente o trabalho forçado e insalubre levava a graves problemas respiratórios. O trabalho infantil só foi abolido após 1875, após a invenção de novas formas de limpeza das chaminés.  Nas classes sociais mais baixas, era comum que os pequenos fossem vistos pelos adultos como mão de obra adicional (e necessária) para o sustento das famílias.

A mudança com uma legislação específica que protegesse o direito infantil foi publicada pela ONU apenas em 1957, ou seja, pleno século XX, quase 100 anos após a abolição do trabalho das crianças na Inglaterra.

Para se ter uma ideia do quanto isto é recente, o estatuto da criança e do adolescente (ECA) foi criado apenas em 1990 no Brasil, às vésperas do século XXI.  Esse estatuto proíbe o trabalho de crianças e adolescentes até os 14 anos, sendo que dos 14 aos 16 elas podem entrar num programa de trabalho como jovens aprendizes.

A partir da criação dessas leis, percebemos que foi apenas durante os últimos cem anos que admitimos a infância como uma época em que as crianças devem ser protegidas, como uma época em que os pequenos deveriam ser poupados do trabalho e da exploração de qualquer forma, e que pudessem se dedicar às descobertas e ao aprendizado. E isso foi um grande avanço em termos humanos.

Mas, curiosamente, parece que ultimamente andamos subvertendo os papéis educativos, especialmente durante as últimas décadas no Brasil. Nas classes com mais recursos, passamos a ser ultraprotetores em relação aos pequenos e a acreditar que quanto maior quantidade de recursos, brinquedos, atividades e afins, melhor seria o desenvolvimento infantil e maior capacidade teriam nossas crianças na idade adulta. Delegamos às escolas também a responsabilidade por educar, que deveria ser feita em casa. Na prática, com o excesso de mimos,  permissividade e independência prematura, os miúdos têm se revelado respondões, malcriados e muitas vezes se  transformam em pequenos ditadores, a serem servidos em seus caprichos e desejos. 

E agora os pais reclamam, relatando uma incapacidade de lidar com os constantes acessos de raiva, birra e mau humor dos filhos. Mas então, onde será que estamos errando?

criança birrenta, de Gustav Vigeland.

Possivelmente o erro está na própria incapacidade dos pais em dizer “não”. E porque é fundamental dizer “não”? Porque o “não” estrutura a criança. Na infância, desde os primeiros anos, são os pais que irão limitar os impulsos da criança, dizer o que pode e não pode fazer, comprar, comer, estudar, etc. Cabe aos pais darem o que em Psicologia chamamos de “limite”. E as crianças pedem e testam esses limites o tempo inteiro. Muitas vezes isso é cansativo e os pais ou responsáveis, acabam cedendo à tentação de deixá-los por si próprios. Mas é tarefa dos pais/responsáveis escolher o que é melhor para as crianças, bem como apontar muitas vezes a necessidade de adiamento, ou até mesmo a impossibilidade de realização de determinados desejos. E saiba que se você como pai/mãe ou responsável se recusar a fazer isso, as experiências da vida irão necessariamente demonstrar esses limites, em geral, com um custo emocional muito mais elevado.

E agora chegamos ao coração da questão. O que acontece quando não damos limites às crianças?

  1. Em geral isso acaba gerando grande confusão na cabeça da criança, que ainda não tem discernimento suficiente para decidir o que é melhor para ela. Pense num pequeno que quer almoçar salgadinhos em vez de comida, por exemplo.   
  2. A criança aprende que o seu desejo vem em primeiro lugar e que os adultos são como serviçais ao seu dispor. Quando isso não ocorre, acessos de birra dão conta do recado.  A criança começa a achar que tem o direito de fazer um escândalo quando não obtém o que deseja, seja isso comida, um brinquedo, um passeio/atividade, etc.
  3. A criança se acostuma ao imediatismo, não entendendo que muitas vezes é necessário um certo tempo até poder realizar determinada atividade, ter determinado brinquedo, etc. Esse hábito ao longo do tempo contribui para a formação de uma personalidade ansiosa. Forma-se uma criança inquieta, ansiosa, que têm baixa tolerância à frustração e à espera.
  4. Em última instância, uma personalidade ansiosa, somada à uma baixa tolerância à frustração pode levar à hiperatividade e num segundo momento à frustração/raiva e até à depressão,  como formas reativas à incapacidade real de realização desses desejos. Afinal não dá para ter tudo, imediatamente, sempre…

Por isso, se você quer criar crianças saudáveis, talvez o melhor a fazer seja explicar abertamente as possibilidades de recursos, tempo e energia disponíveis, e, acima de tudo, mostrar também as diversas limitações às quais todos nós, em maior ou menor grau, estamos sujeitos. Com isso, aos poucos, os pequenos irão criando a capacidade de esperar, de suportar a ausência e também de tolerar as impossibilidades. E todas essas capacidades são fundamentais a qualquer adulto, sabendo que normalmente, somos obrigados a lidar muito mais com a falta, do que o contrário.

Ilan Segre é Psicólogo Clínico formado pela USP, pós graduado em Fitoterapia pela Fac. Mario Schenberg. Complementou sua formação como psicólogo residente no Gupta Yogic Hospital (Lonavala), Jipmer Hospital (Pondicherry) e no Nisargopchar Ashram (Pune), na Índia. Foi um dos fundadores do NUMIER – Núcleo de Medicina Integrativa do Hospital Emilio Ribas e, em 2012, publicou o livro Terapia Integrativa (ed. Ágora).  Atualmente atende em seu consultório, unindo Psicoterapia Clínica com técnicas integrativas para remissão dos sintomas.


Comentários

Jessivane Santos

Em 04 de abril de 2018 às 03:31

Excelente texto.
A cada dia é possível notar pais perdidos em relação ao seu papel junto aos filhos .
O stress do a dia faz com que tentem a todo momento, suprir os filhos de tudo o que é possível (materialmente) apenas para se livrarem de ter que administrar este tipo de
Conflito pois educar requer paciência e muita disposição .

Parabéns pelo texto Ilan !


José Fonseca

Em 04 de abril de 2018 às 08:55

Colocada de maneira didática a importância do aprendizado do ‘sim’ e do ‘não’. Se eu sei o que não posso fazer, percebo que posso usufruir melhor do que posso.


Adriana R Carvalho

Em 06 de abril de 2018 às 11:26

Ilan, muito bem elaborado esse texto, o filho é espelho dos pais e o quanto é difícil para os pais receberem esse reflexo nos filhos!!!


Bruna Policastro

Em 06 de abril de 2018 às 12:34

Parabéns pela matéria Ilan. Vejo uma grande dificuldades dos pais em como colocar estes limites. São muitas amigos e familiares tentando conduzir os pais e muitas informações por aí sem conteúdo e então criam-se pais perdidos em como lidar com os pequenos.

Você é ótimo! Sucesso sempre


Tania Cristina Gottberg

Em 26 de abril de 2018 às 18:42

Ilan, texto perfeito, disse tudo!Educar é lapidar, trabalho árduo, constante,de erros e acertos que se bem realizado traz a longo prazo amadurecimento, vínculo e segurança para os pais e para os filhos.Adorei a expressão o “coração”da questão!Bjs


Faça um comentário (seu e-mail não será publicado)