Quando o hábito vira vício…
Publicado em 04 de agosto de 2016.
Um cigarro, um copo de whisky, uma olhada no whatsapp, outra no instagram, uma terceira no messenger…As possibilidades são inúmeras.
Mas como e quando o hábito vira vício?
Essa linha é bem mais tênue do que parece e a dependência física ou química acaba acometendo muitos pacientes que chegam ao consultório.
Muitas vezes quem se dá conta que estamos passando dos limites não somos nós, mas sim as pessoas que convivem conosco.
É realmente muito difícil nos livrarmos de velhos hábitos. Já ouvi pessoas dizendo não serem capazes de parar de fumar ou de beber, mesmo após terem passado por cirurgias no pulmão, garganta ou cardíacas. Sim, faz pensar que de fato o vício se instalou silenciosamente em nossa rotina…
Mas se não é uma questão de falta de clareza nem de intelecto, porque mesmo sabendo que alguns hábitos são nocivos somos incapazes de abandoná-los?
Bom, em primeiro lugar, porque são extremamente prazerosos. Eu costumo dizer no consultório que se comer chocolate, tomar bebidas alcóolicas, ou usar drogas fosse ruim, ninguém faria… De fato, todos nós já experimentamos o prazer que a comida e a bebida ou estados alterados de consciência nos proporcionam. Aliás, buscar estes estados deve ser algo tão antigo quanto a própria humanidade. Mas fato é que muitas das substâncias presentes na comida, na bebida e nas drogas consumidas acabam sendo aditivas e quando nos damos conta, podemos já ter cruzado a fronteira do vício. Para se ter uma ideia, um documentário que aborda de forma magistral a questão aditiva e viciante do açúcar é “The Secrets of Sugar”, que você pode assistir clicando no link abaixo:
Às vezes os pacientes reconhecem que possuem algumas “questões” com a bebida ou com as drogas, mas não que haja dependência. Reconhecer que há uma “questão” pode significar uma forma suave de assumir que realmente já não somos nós que estamos no controle da situação, é a ânsia pela bebida ou pela droga que nos controla. Ora, nesses casos, a “questão” em si chama-se dependência. Quando precisamos de algo ou alguém para relaxarmos, para nos sentirmos melhores ou apenas para passarmos o tempo, estamos viciados. Mas é muito difícil admitirmos para nós mesmos que passamos do ponto…
Como será que nos viciamos sem perceber?
1) Porque é muito prazeroso – Procure analisar um hábito que você tenha, de preferência que não seja dos mais saudáveis e veja se não consegue imediatamente associar um grande prazer à sua execução. Fumar, por exemplo, ocupa a mente e as mãos, torna a expiração imediatamente mais lenta e ainda nos brinda com a beleza da fumaça. Nada melhor para nos afastar um pouco dos problemas do escritório ou de casa. Sair do escritório por alguns instantes para fumar ou tomar um café também pode ser a única oportunidade para uma “pausa” na nossa rotina, um alento na chatice da rotina.
2) Porque estamos entediados – Abrir o whatsapp a todo instante, checar emails e usar o celular como uma companhia pode, sem dúvida, também ser uma espécie de vício. De fato, é difícil ficarmos sozinhos, pensarmos sobre nós mesmos ou sobre a vida que levamos. O celular é como um amigo que nos mantém ocupados, física e mentalmente. Quer coisa melhor do que olhar para a telinha, ou digitar, enquanto viajamos de metrô de um lugar a outro, aguardamos uma reunião ou até mesmo durante a reunião? Assim não precisamos olhar para as pessoas em volta nem corremos o risco de parecer desocupados. Afinal, em nossa sociedade moderna não pega nada bem não fazer nada. Temos que produzir, sempre!
3) Porque gostamos de parecer importantes – Lembro de como na época que trabalhava em empresas, ser constantemente solicitado fosse em ligações na mesa ou ao celular, era um sinal de que a pessoa estava se tornando mais importante na hierarquia. Ter que participar de inúmeras reuniões, também funcionava da mesma forma. Acho que muita coisa não mudou, ainda que hoje as pessoas fiquem conectadas no whatsapp durante as próprias reuniões, que como a rotina, são quase sempre muito chatas…
4) Porque somos incentivados socialmente – Eu mesmo experimentei pela primeira vez um cigarro quando tinha quinze anos de idade, numa roda de amigos na rua (sim, àquela época nossa adolescência era passada literalmente na rua, com amigos, jogando bola ou conversa fora). A sorte é que, na ocasião, tossi tanto que desisti da empreitada de fumar, mesmo lembrando da “boa pinta” que dava segurar um cigarro nas domingueiras. Me lembro também de maneira parecida com a sensação após os primeiros goles de cerveja – bebida esquisita, amarga… Mas o estranhamento passa logo e rapidamente aprendemos a apreciar aquilo que inicialmente nos fez tossir ou ter o paladar amargo. Aprendemos a nos conformar socialmente.
5) Porque não temos consciência – A ideia totalmente bizarra, de que somos capazes de fazer cinco coisas ao mesmo tempo, muitas vezes carrega secretamente consigo, a semente de um hábito. Isso gera distanciamento das tarefas e portanto inconsciência em nossos atos. Agimos automaticamente, sem nos dar plena conta do que fazemos, nem prestarmos atenção às tarefas. Exemplos atuais, não nos faltam:
– Ir dormir vendo TV;
– Estudar, comer, ouvir música ou ver TV ao mesmo tempo;
– Andar na rua ouvindo música com fones de ouvido;
– Dirigir falando ao celular;
– Dirigir mandando mensagens (este hábito então pode até ser fatal);
– etc…
A quantidade de distrações disponíveis aumenta a cada dia, mas infelizmente (ao contrário do que se apregoa por aí) o nosso cérebro não evoluiu a contento e ainda não é capaz de se subdividir como o de um computador. Ou seja, na prática, continuamos sendo capazes de executar apenas uma única tarefa por vez, com 100% de atenção ou então fazemos várias coisas ao mesmo tempo, mas somos obrigados a mudar rapidamente a atenção de uma tarefa para outra, o que nos dá uma (falsa) sensação de sermos capazes de realizar perfeitamente duas, três ou cinco coisas ao mesmo tempo. Prova disso, é o número crescente de acidentes de carro que são causados por desatenção momentânea pelo uso de celular ao volante.
Muitos dos hábitos que temos hoje foram herdados culturalmente e dependem da época e do local onde vivemos. Outros, surgiram a partir do nosso convívio em família, com amigos ou são fruto de aprendizado das telas de cinema, das novelas ou dos seriados que tanto gostamos. E então, além de fornecerem uma recompensa prazerosa, esses hábitos também são valorizados pelos amigos e por nossos pares. Pronto, a armadilha emocional está formada…
Pare e reflita quais hábitos você possui e quais possuem você. Aqueles que temos dificuldade em modificar, aqueles que nos fazem sentir dependentes e dos quais não podemos largar podem já ter cruzado a fronteira e sido promovidos a vícios. E como o próprio nome diz, o vício é uma dependência física e/ou psicológica que nos leva a buscar o consumo excessivo de uma substância ou a repetição de um comportamento.
Como somos pobres em nossa capacidade de nos auto-analisar e diagnosticar, na dúvida vale sempre buscar a ajuda de um especialista. E o caminho da independência passa por manter a consciência sempre em primeiro lugar, tomar boas decisões e a partir delas assumir condutas pelas quais possamos sempre nos responsabilizar.
Boas reflexões!
ILAN FERNANDO SEGRE
Psicólogo USP (CRP 06/112563)
Pós-grad. Fitoterapia Fac. Mario Schenberg.
Autor do livro TERAPIA INTEGRATIVA
CONSULTÓRIO f: (11) 96350-7228
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